O DRONE
Quando o viu já era tarde demais e da noite. Um zingarelho voador como aquele sem uma única luz avisadora a bordo, dificilmente poderia ser lobrigado a tempo no céu escuro de Janeiro, voando célere e apontado à sua pessoa. Uma cobardia infame, vociferou ele , braços no ar, vendo afastar-se a coisa depois dela ter feito o trabalho sujo. Dali para a frente nada seria como dantes; não haveria cão nem gato que não ficasse a par dos factos mais íntimos da sua existência. O casamento relâmpago -- pela Igreja do Décimo Terceiro Mês, com Clarissa de esperanças em muitos filhos-abono-de-família após um tórrido romance com aquela que viria a ser a sua futura sogra, a deserção do Exército quando teve notícia que ia ser mobilizado para combater uma praga de mosquitos-de-asa-rosa no rio Tua, a fuga desordenada para o Curdistão onde se estabeleceu com um negócio de amendoins torrados em fogo-posto e o regresso à Malveira depois de um golpe militar de tortas progressistas. Dos devaneios com a sua secretária Flor de Pinho, do fervor bovino pelo Estrelas da Lezíria Futebol Clube e da rematada taradice pantagruélica por tartes de espinafre coreanas.
Entrou em casa e rasgou em mil pedaços o cartão de associado do Clube de Aeromodelismo Asas de Grilo.
Alberto Oliveira
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