sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

NÃO  É  UM  CONTO  DE  NATAL


De Adérito P. (o pai, italiano que se tinha apaixonado e casado com uma portuguesa de Barcelos, dera-lhe o apelido de Picciotti mas Adérito sempre tivera dificuldade em assumi-lo oralmente... ), bem se poderia afirmar que era um ouvinte e leitor atento de toda e qualquer informação produzida pela comunicação social, onde naturalmente se incluíam as malhas de uma rede onde qualquer cidadão tinha direito a opinar.

Os seus tempos livres eram inteiramente dedicados a ouvir, ler, tomar notas e... conclusões. Fruto daquilo que poderíamos designar por uma segunda profissão, nos últimos quinze anos Adérito P. tinha mudado de associado de emblema desportivo por seis vezes, por cinco de partido político, por quatro de esposa, por três de alimentação básica e por dois de carro próprio.

Depois de reunir todas as notas que tomou, relacionadas com a Covid 19 em curso e de as considerar exaustivamente desde o primeiro momento, até ao último mês do ano, Adérito P. concluiu que a pandemia embora matasse mais de milhão e meio de pessoas e infectasse largas dezenas de milhão de outras tantas, nunca existiu de facto, mas que todas as directivas procedidas da OMS deviam ser tomadas em linha de conta no combate contra o coronavírus e que a vacinação faria toda a diferença para debelar o surto epidémico, embora por outro lado, ela pudesse ser um maléfico método de controlo de massas.

Levantou-se uma manhã, nauseado, com febre alta, uma tosse profunda que lhe queimava as entranhas não lhe permitindo respirar e, sem forças, voltou a deitar-se adormecendo. Acordou estremunhado com a voz da neta que tinha ido ao supermercado comprar pão e leite para o pequeno-almoço: "Avozinho, cheguei!". O estado de saúde de Adérito P. era de tal modo grave que já não conseguiu distinguir as feições da menina. Carinhosamente passou uma das suas mãos pela face da jovem e perguntou-lhe "Para que serve esta boca tão bem desenhada da minha linda netinha?". E ela respondeu "É para te comer, avozinho!"


Alberto Oliveira


 

2 comentários:

  1. Coitada da menina! Comer o(a) usado(a) Piccioti, ainda por cima infectado(a)...

    ResponderEliminar
  2. Deliciosa. O nome do avô-gelado... Piccioti!
    Já não se fazem bolinhos para a avózinha. E o Lobo Mau anda watching us. Abrç

    ResponderEliminar