A PONTE
As boas intenções de quem lhe deu o nome nunca fizeram eco no gosto pessoal de Leónidas que para além de não amar de se fazer notado -- era conhecida a sua modéstia, cedo percebeu que ser assim denominado se prestava, em dias positivos, a oh´s! de espanto ou a exaustivas explicações históricas e nos menos bons, a ser olhado de soslaio por gente desconfiada a quem usasse nome tão despropositado.
A decisão radical ganhava forma; matava-se o bicho acabando com a peçonha. Se assim pensou mais rápido o fez. Saiu do autocarro para Lisboa, na portagem, e em corrida veloz ludibriando a polícia, chegou a meio da ponte 25 de Abril e atirou-se ao Tejo. No mínimo, não seria por sua causa que o trânsito ficaria empancado. Tanto azar teve que -- em queda livre apesar da altura, não há maneira de voltar atrás, aterrou na água, não a do rio, mas na piscina de um luxuoso transatlântico com bandeira grega, de nome "Termópilas Line", que em cruzeiro se preparava para tocar o porto da capital portuguesa.
Kyriatos, comandante do navio, ao saber o nome do nosso homem, comentou "É curioso. Só esperávamos um animador do circo aéreo no nosso espectáculo a bordo, na despedida de Lisboa. Mas ainda bem que se antecipou; é sinal que vive intensamente a arte que abraçou". E chamou de imediato o imediato, um iraniano de nome Xerxes: "Dê roupas secas ao nosso amigo, trate-o bem, porque não é todos os dias que nos cai do céu um sujeito com um nome tão incomum".
Leónidas gostou tanto da experiência que acabou por se tornar a atracção principal nos cruzeiros daquela companhia grega. Apenas mudou de nome: Plistarco.
Alberto Oliveira.
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