sábado, 2 de janeiro de 2021

UM  HOMEM  INVISÍVEL


Entrou na acanhada papelaria que no momento não tinha clientela e pediu um expressivo semanário. O homem de idade avançada que estava ao balcão nem pestanejou; continuou a rabiscar algo num pequeno bloco de notas. Impaciente, Lisandro contou um minuto e vinte segundos e quando se preparava para voltar a formular o pedido, entrou na loja uma mulher jovem, peito farto, cabelo curto, de casaco felpudo rosa-velho e saltos assustadoramente altos, que se lhe antecipou. Quero duas raspadinhas com prémio, a revista corações em chamas e o meu número de contribuinte é o seiscentos e quarenta, duzentos e quatro, quinhentos. Num ápice, o homem do balcão satisfez o pedido da mulher nova que saiu aos saltos assustadoramente altos. Lisandro, tentando tornar-se notado clareou a voz, subiu o tom e repetiu cantando -- com a música do bairro do amor de Jorge Palma, por favor venda-me o semanário que lhe pedi, antes de ter chegado a mulher dos saltos! Mas o homem com alguma idade, protegido pelo balcão, já tinha retomado o garatujar no bloco de notas e só levantou os olhos, poucos segundos depois, para um sujeito entroncado, fardado de guarda-da-república que levou num abrir e bater de pálpebras, o correio da madrugada, o recorde da bola e um maço de tabaco americano uncle sam-payo, with filter. Lisandro teve então um déjà vu; imaginou que, vá lá saber-se porquê, tinha ficado invisível aos olhos de qualquer cidadão comum. Não fosse o diabo tecê-las, saiu pé-ante-pé da tabacaria e com um mau pressentimento na cabeça, dirigiu-se apressadamente para casa onde encontrou na sua cama, a esposa e o entroncado guarda-da-república desfardado, não tendo nenhum dos dois dado pela sua presença, o que veio confirmar os seus receios: invisível e atraiçoado. Com a emoção desmaiou.

Abriu os olhos quando uma mulher de peito farto, cabelo curto e saltos vertiginosamente altos lhe pediu duas raspadinhas, a revista corações em chamas e por aí fora.

Não dá bom resultado escrever em blocos de notas, contos psicológicos de conflitos insolúveis, atrás do balcão de uma acanhada tabacaria, admitiu Lisandro.


Alberto Oliveira

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