terça-feira, 26 de janeiro de 2021

MEL (OU) DRAMA ? 


Raimundo Barbeitos não queria acreditar no que lhe estava a acontecer. Sem saber como nem porquê, ei-lo transportado da sua vidinha pacata, procurando adormecer na sua cama, só e descomprometido depois de mais um dia de trabalho sem história, para uma cidade que não reconhece, gente que fala um idioma que não domina e... com um gato branco debaixo do braço. Imaginou-se a relatar tal cenário a alguém e de certeza o mínimo que poderiam dizer seria "Qual é o espanto? O homem passa-se! E deve levar a vida a ver as séries fantásticas da Fox!". E teriam razão, admitiu. Se lhe tentassem impingir história idêntica à que estava a viver, a sua reacção seria igual. E o pior de tudo era não poder defender-se, jurando não ser consumidor de substâncias proibidas ou perder tempo com ficções televisivas. Mas a coisa não ficava por aqui; com o passar dos minutos não se lembrava sequer do seu nome ou de que terra era. Apenas que antes, uma voz masculina ligou para o seu telemóvel -- desbloqueado e sem contactos pessoais, e o informou que o ponto de encontro seria no mercado municipal junto à banca de frutas e legumes da senhora Mawar, às quinze horas certas, que cuidasse de não ser seguido e que escondesse o gato sob o blusão, porque se o chip que tinha sido inoculado na cauda do bichano caísse em mãos alheias à Causa, tudo estaria perdido e a Raimundo nem tempo lhe sobraria para escrever o epitáfio próprio e a gosto. Que "Agosto, meu querido mês de Agosto" seria a sua senha de quem o contactasse, à qual responderia com a contra-senha "Janeiro, meu mal-humorado Janeiro", terminou a voz pausada e seca.

Embora a temperatura ambiente rondasse os zero graus celsius, Raimundo transpirava com os nervos. Procurou um sítio onde se refugiar, descansar um pouco e ordenar ideias. Num beco escuro, sentou-se num colchão desprezado junto ao portão de uma casa cinzenta abandonada. Apenas a cor do gato contrastava com o cenário negro. Tanto lhe pesava o corpo, tanto. E os olhos não lhe obedeciam; fechavam-se a.

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Acorda Raimundo! Essa mania de dormires com o gato na cama tem de se acabar, que me dás cabo dos lençóis. Devias era aquecer os pés com uma mulher, que já estás em boa idade para desemparares a loja materna e fazer-te à vida. Vê se tens juízo; quem dorme de botas forradas em pleno Agosto, não lava os pés e tem borbulhas no rosto.

Alberto Oliveira

sábado, 16 de janeiro de 2021

O  DEBATE


Euclides Jasmim encontrou-se com o seu oponente, Eleutério Rosa, à entrada da sala de maquilhagem. Do uso da máscara abaixo do apêndice nasal, do distanciamento social ombro com ombro, e das breves palavras que trocaram, bem se poderia imaginar que estávamos em presença de dois dignos democratas que embora de quadrantes políticos antagónicos, faziam bandeira do respeito mútuo.

O debate decorreu, como seria de prever em contendas desta natureza, dentro dos parâmetros habituais.  Sobre as suas intenções -- no caso de qualquer um deles ser eleito,  foi esclarecedor; se na questão ambiental estiveram um tudo nada distantes -- um afirmou que o outro "não era flor que se cheirasse", teve resposta à letra do adversário, apelidando-o de "flor de estufa", na saúde a coisa foi bem diferente; Jasmim garantiu que estava em grande forma física mas Rosa foi mais longe: desafiou Euclides para uma corrida de cem metros, dando-lhe oitenta centímetros de avanço. Como também é habitual nestes despiques, as vozes dos dois contendores sobrepunham-se e o próprio moderador pretendendo pôr alguma ordem no debate, questionou Jasmim: "E sobre a pandemia? O que faria para... ". Euclides nem o deixou terminar: "Este gráfico que aqui trago, explica tudo! E mais não digo!" disse, guardando de imediato a folha de papel. Por sua vez, Eleutério mostrou uma foto onde se via Jasmim numa rua movimentada, distribuindo panfletos publicitários de um produto contra a queda do cabelo. "Quem votar neste homem, corre o risco de ficar careca!", acrescentou.

À saída do estúdio, educadamente sarcástico, Eleutério convidou Euclides: "Espero que vá assistir à minha tomada de posse." ao que Jasmim retorquiu: "Sim, sei que se candidatou à presidência do Clube de Pesca Submarina de Ria Jeitosa. Agradeço o amável convite mas nesse dia vou festejar a minha eleição; de presidente da direcção da Associação de Tocadores de Cavaquinho da Freguesia do Senhor da Serra."


Alberto Oliveira


quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

A  CORRIDA


Quem o queria ver satisfeito da vida era observá-lo curvado sobre a bicicleta, pedalando em esforço para vencer a íngreme e única ladeira de A dos Bisnetos, ou numa cavalgada desenfreada pondo em risco a sua integridade física, tal a velocidade que imprimia à máquina, agora na descida da rampa que antes tinha trepado. Para não falar no modo como desafiava as três apertadas curvas da simpática freguesia da Beira Litoral, onde o homem e o velocípede se uniam em simbiose perfeita desafiando as leis da gravidade. Chovesse ou fizesse sol, a população vinha para a rua aos fins-de-semana, aplaudindo-o à sua passagem, porque Indalécio Cunha era entretenimento garantido, tal a garra com que atacava o singelo percurso em incontáveis e voluntariosas voltas.

Nos outros dias, Indalécio de semblante taciturno, metia-se no carro rumando à cidade distante, onde trabalhava na sucursal de uma companhia de seguros, ocupação monótona, sem o gozo que as duas rodas lhe proporcionavam.

Uma coisa era certa; ao que se garantia, nas suas corridas sem opositores ou acompanhantes, Cunha nunca tinha -- felizmente para ele, beijado o chão da estrada nas suas corridas a solo. Diziam uns, que ele dava um bom contra-relogista, outros opinavam que ele era homem de não gostar de perder nem a amendoins e finalmente, aqueles que afirmavam com conhecimento de causa, que correndo em grupo as probabilidades de se estatelar eram mais que muitas.

A verdade é que nem uma destas ideias, tinham a ver com a realidade. Indalécio corria de bicicleta procurando esquecer um acidente que ainda hoje o traumatizava; a queda que deu em criança quando o puseram em cima de um cavalo. De madeira e sem rodas. Quando ele tinha pedido um triciclo.

Alberto Oliveira

 

sábado, 2 de janeiro de 2021

UM  HOMEM  INVISÍVEL


Entrou na acanhada papelaria que no momento não tinha clientela e pediu um expressivo semanário. O homem de idade avançada que estava ao balcão nem pestanejou; continuou a rabiscar algo num pequeno bloco de notas. Impaciente, Lisandro contou um minuto e vinte segundos e quando se preparava para voltar a formular o pedido, entrou na loja uma mulher jovem, peito farto, cabelo curto, de casaco felpudo rosa-velho e saltos assustadoramente altos, que se lhe antecipou. Quero duas raspadinhas com prémio, a revista corações em chamas e o meu número de contribuinte é o seiscentos e quarenta, duzentos e quatro, quinhentos. Num ápice, o homem do balcão satisfez o pedido da mulher nova que saiu aos saltos assustadoramente altos. Lisandro, tentando tornar-se notado clareou a voz, subiu o tom e repetiu cantando -- com a música do bairro do amor de Jorge Palma, por favor venda-me o semanário que lhe pedi, antes de ter chegado a mulher dos saltos! Mas o homem com alguma idade, protegido pelo balcão, já tinha retomado o garatujar no bloco de notas e só levantou os olhos, poucos segundos depois, para um sujeito entroncado, fardado de guarda-da-república que levou num abrir e bater de pálpebras, o correio da madrugada, o recorde da bola e um maço de tabaco americano uncle sam-payo, with filter. Lisandro teve então um déjà vu; imaginou que, vá lá saber-se porquê, tinha ficado invisível aos olhos de qualquer cidadão comum. Não fosse o diabo tecê-las, saiu pé-ante-pé da tabacaria e com um mau pressentimento na cabeça, dirigiu-se apressadamente para casa onde encontrou na sua cama, a esposa e o entroncado guarda-da-república desfardado, não tendo nenhum dos dois dado pela sua presença, o que veio confirmar os seus receios: invisível e atraiçoado. Com a emoção desmaiou.

Abriu os olhos quando uma mulher de peito farto, cabelo curto e saltos vertiginosamente altos lhe pediu duas raspadinhas, a revista corações em chamas e por aí fora.

Não dá bom resultado escrever em blocos de notas, contos psicológicos de conflitos insolúveis, atrás do balcão de uma acanhada tabacaria, admitiu Lisandro.


Alberto Oliveira

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

A  PONTE


As boas intenções de quem lhe deu o nome nunca fizeram eco no gosto pessoal de Leónidas que para além de não amar de se fazer notado -- era conhecida a sua modéstia, cedo percebeu que ser assim denominado se prestava, em dias positivos, a oh´s! de espanto ou a exaustivas explicações históricas e nos menos bons, a ser olhado de soslaio por gente desconfiada a quem usasse nome tão despropositado.

A decisão radical ganhava forma; matava-se o bicho acabando com a peçonha. Se assim  pensou mais rápido o fez. Saiu do autocarro para Lisboa, na portagem, e em corrida veloz ludibriando a polícia, chegou a meio da ponte 25 de Abril e atirou-se ao Tejo. No mínimo, não seria por sua causa que o trânsito ficaria empancado. Tanto azar teve que -- em queda livre apesar da altura, não há maneira de voltar atrás, aterrou na água, não a do rio, mas na piscina de um luxuoso transatlântico com bandeira grega, de nome "Termópilas Line", que em cruzeiro se preparava para tocar o porto da capital portuguesa.

Kyriatos, comandante do navio, ao saber o nome do nosso homem, comentou "É curioso. Só esperávamos um animador do circo aéreo no nosso espectáculo a bordo, na despedida de Lisboa. Mas ainda bem que se antecipou; é sinal que vive intensamente a arte que abraçou". E chamou de imediato o imediato, um iraniano de nome Xerxes: "Dê roupas secas ao nosso amigo, trate-o bem, porque não é todos os dias que nos cai do céu um sujeito com um nome tão incomum".

Leónidas gostou tanto da experiência que acabou por se tornar a atracção principal nos cruzeiros daquela companhia grega. Apenas mudou de nome: Plistarco.


Alberto Oliveira.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

NÃO  É  UM  CONTO  DE  NATAL


De Adérito P. (o pai, italiano que se tinha apaixonado e casado com uma portuguesa de Barcelos, dera-lhe o apelido de Picciotti mas Adérito sempre tivera dificuldade em assumi-lo oralmente... ), bem se poderia afirmar que era um ouvinte e leitor atento de toda e qualquer informação produzida pela comunicação social, onde naturalmente se incluíam as malhas de uma rede onde qualquer cidadão tinha direito a opinar.

Os seus tempos livres eram inteiramente dedicados a ouvir, ler, tomar notas e... conclusões. Fruto daquilo que poderíamos designar por uma segunda profissão, nos últimos quinze anos Adérito P. tinha mudado de associado de emblema desportivo por seis vezes, por cinco de partido político, por quatro de esposa, por três de alimentação básica e por dois de carro próprio.

Depois de reunir todas as notas que tomou, relacionadas com a Covid 19 em curso e de as considerar exaustivamente desde o primeiro momento, até ao último mês do ano, Adérito P. concluiu que a pandemia embora matasse mais de milhão e meio de pessoas e infectasse largas dezenas de milhão de outras tantas, nunca existiu de facto, mas que todas as directivas procedidas da OMS deviam ser tomadas em linha de conta no combate contra o coronavírus e que a vacinação faria toda a diferença para debelar o surto epidémico, embora por outro lado, ela pudesse ser um maléfico método de controlo de massas.

Levantou-se uma manhã, nauseado, com febre alta, uma tosse profunda que lhe queimava as entranhas não lhe permitindo respirar e, sem forças, voltou a deitar-se adormecendo. Acordou estremunhado com a voz da neta que tinha ido ao supermercado comprar pão e leite para o pequeno-almoço: "Avozinho, cheguei!". O estado de saúde de Adérito P. era de tal modo grave que já não conseguiu distinguir as feições da menina. Carinhosamente passou uma das suas mãos pela face da jovem e perguntou-lhe "Para que serve esta boca tão bem desenhada da minha linda netinha?". E ela respondeu "É para te comer, avozinho!"


Alberto Oliveira


 

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

UM  BREVE  CONTO  ENTRE  REPUBLICANOS


Certo dia um jovem republicano encontrou outro republicano, velho amigo,  e não foi de modas; pediu-lhe cinco contos de reis emprestados. O velho amigo republicano, apesar da amizade que os unia, disse-lhe ser impossível satisfazer tal empréstimo uma vez que a moeda actual, nada tinha a ver com aquela a que se referia o pedido do jovem amigo republicano. Surpreendido pela recusa, o jovem republicano argumentou que "estava espantado com o declinar de uma solicitação tão banal e que o seu velho amigo teria feito grossa confusão entre aquilo com que se compram as melancias e livros de contos dos tempos da monarquia... E porque torna e porque deixa.". 
Bem se esfalfou o jovem republicano a justificar-se que nem deu que a meio do seu discurso, o seu velho amigo republicano, enquanto o Diabo esfregava um olho e Deus procurava os óculos, tinha-se pisgado das linhas deste breve conto.

Moral da história: Os velhos republicanos detestam que os jovens republicanos os tratem como idosos, em contos breves entre republicanos.

Alberto Oliveira