MEL (OU) DRAMA ?
Raimundo Barbeitos não queria acreditar no que lhe estava a acontecer. Sem saber como nem porquê, ei-lo transportado da sua vidinha pacata, procurando adormecer na sua cama, só e descomprometido depois de mais um dia de trabalho sem história, para uma cidade que não reconhece, gente que fala um idioma que não domina e... com um gato branco debaixo do braço. Imaginou-se a relatar tal cenário a alguém e de certeza o mínimo que poderiam dizer seria "Qual é o espanto? O homem passa-se! E deve levar a vida a ver as séries fantásticas da Fox!". E teriam razão, admitiu. Se lhe tentassem impingir história idêntica à que estava a viver, a sua reacção seria igual. E o pior de tudo era não poder defender-se, jurando não ser consumidor de substâncias proibidas ou perder tempo com ficções televisivas. Mas a coisa não ficava por aqui; com o passar dos minutos não se lembrava sequer do seu nome ou de que terra era. Apenas que antes, uma voz masculina ligou para o seu telemóvel -- desbloqueado e sem contactos pessoais, e o informou que o ponto de encontro seria no mercado municipal junto à banca de frutas e legumes da senhora Mawar, às quinze horas certas, que cuidasse de não ser seguido e que escondesse o gato sob o blusão, porque se o chip que tinha sido inoculado na cauda do bichano caísse em mãos alheias à Causa, tudo estaria perdido e a Raimundo nem tempo lhe sobraria para escrever o epitáfio próprio e a gosto. Que "Agosto, meu querido mês de Agosto" seria a sua senha de quem o contactasse, à qual responderia com a contra-senha "Janeiro, meu mal-humorado Janeiro", terminou a voz pausada e seca.
Embora a temperatura ambiente rondasse os zero graus celsius, Raimundo transpirava com os nervos. Procurou um sítio onde se refugiar, descansar um pouco e ordenar ideias. Num beco escuro, sentou-se num colchão desprezado junto ao portão de uma casa cinzenta abandonada. Apenas a cor do gato contrastava com o cenário negro. Tanto lhe pesava o corpo, tanto. E os olhos não lhe obedeciam; fechavam-se a.
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Acorda Raimundo! Essa mania de dormires com o gato na cama tem de se acabar, que me dás cabo dos lençóis. Devias era aquecer os pés com uma mulher, que já estás em boa idade para desemparares a loja materna e fazer-te à vida. Vê se tens juízo; quem dorme de botas forradas em pleno Agosto, não lava os pés e tem borbulhas no rosto.
Alberto Oliveira